Um quase apartheid paranaense

July 11th, 2014 § 0 comments § permalink

O coração de Amélia disparou ao perceber que um carro preto se aproximava lentamente até frear ao seu lado. “Não, nem conheço vocês”, responderia, assustada, depois que um dos ocupantes baixou o vidro escuro e lhe mandou subir. A jovem tentaria escapar segundos depois, quando a ordem ganhou rispidez e se transformou em ultimato, “Entra logo!”, mas não conseguiu.

“Estava de salto e não pude correr”, justifica. A voz é baixa, as mãos não param de amarrotar um pedaço colorido do vestido. “Então, um deles pegou meu cabelo, tapou minha boca e me colocou pra dentro.”

O sequestro se transformou numa longa sessão de agressões e abusos sexuais que Amélia, nove meses depois, ainda não conseguia verbalizar. Repetia apenas “Judiaram muito de mim” ou “Me judiaram bastante” para descrever o que passou nas mãos de três homens, e as mãos que passaram sobre seu corpo de 19 anos, rodando pelas ruas da cidade com o som ligado no último volume.

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Copa dos direitos violados

June 12th, 2014 § 0 comments § permalink

Convocadas para a manhã de hoje (12) na zona leste de São Paulo, as duas manifestações de rua que pretendiam criticar a realização da Copa do Mundo horas antes da abertura do torneio foram dura e inexplicavelmente reprimidas pela Polícia Militar. Com um efetivo multitudinário, a corporação sitiou toda a região no entorno das estações Tatuapé e Carrão do Metrô, onde os manifestantes haviam combinado de se encontrar para saírem em passeata. Dezenas de caminhões do choque, viaturas e motocicletas estavam apoiadas por helicópteros e cavalaria. A violência das forças de segurança foi tão grande que as marchas sequer chegaram a ocorrer.

Eram 9h15 da manhã quando cheguei às redondezas. Um grande número de soldados, com escudos e capacetes, já estava instalado dentro da estação Carrão do Metrô, revistando pessoas que “aparentavam” ser manifestantes: jovens trajados com roupas pretas, com cortes de cabelo incomuns, negros e com barba. Mochilas foram abertas e supervisionadas sem qualquer justificativa. De lá partiria uma das passeatas marcada para hoje, cuja intenção era caminhar até o cordão de isolamento em torno da Arena Cortinthians, em Itaquera, estádio que sediaria o jogo de abertura da Copa. Antes da chegada dos manifestantes, três linhas de soldados do batalhão de choque já estavam em formação de ataque do lado de fora da estação, com escudos, armas e bombas de gás lacrimogêneo.

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O tiro que veio do carro e matou o menino

April 17th, 2014 § 0 comments § permalink

Algumas faixas e cartazes afixados na cena do crime já anunciavam que não seria uma manhã normal na Rua Bacurizinho. As cartolinas pediam “justiça”, e um banner colorido reproduzia uma foto de Douglas Rodrigues, 17 anos, com a promessa de que seu sorriso jamais seria esquecido pelos amigos, familiares e vizinhos do Jardim Brasil, zona norte de São Paulo.

As autoridades haviam escolhido o dia de hoje (17) para fazer a reconstituição do assassinato do garoto, morto por um tiro no peito há quase sete meses, no dia 27 de outubro de 2013. Era domingo, havia gente na rua. Às 14h20, uma viatura se aproximara do barzinho para atender a uma ocorrência de perturbação do sossego – um forró que estava tocando com volume alto demais.

O soldado da Polícia Militar Luciano Pinheiro, 31 anos, vinha no banco do passageiro. O carro freou na transversal. O policial já estava com a arma em punho, engatilhada, antes mesmo de descer. A pistola mirava Douglas, que passava pelo lugar junto com o irmão de 13 anos. O gatilho foi acionado lá de dentro. Após ser atingido, o jovem questionaria o PM: “Por que o senhor atirou em mim?”

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O canto dos escravos

November 30th, 2010 § 0 comments § permalink

POR HUGO FANTON 

Canto IX (ouça)

I

Hoje, em coisa de segundos, me lembrei de uma menina, vi tristeza no meu mundo e fui invadido pela África, em forma de vissungo.

Em 1982, Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Tia Doca se reuniram para dar nova vida a cantigas ancestrais de negros e negras benguelas, de São João da Chapada, MG. Entoados no cotidiano daquela gente, no trabalho nas minas, em rituais mágicos, festas ou mortes, os vissungos envolviam mundos distintos, terra daqui e de lá, o sobrenatural, a ancestralidade, os que ainda vivem perpassados em notas, por gente, as vozes do além, do lado de lá do mar ou da vida. Mundos sempre a se tocar, no sofrer.

Ei ê lambá,
quero me acabá no sumidô
quero me acabá no sumidô,
lamba de 20 dia
ei lambá, quero me cabá no sumidô —
Ei ererê.

O trabalho duro, lamba, motiva o negro pedir a morte. No vissungo, o sofrer vai daqui pra lá, de lá pra cá, e ouvindo o canto vou sentindo um dizer de Mia Couto: “Hoje eu sei, África rouba-nos o ser, e nos vaza de maneira inversa, enchendo-nos de alma”.

O canto foi registrado em 1929 por Aires da Mata Machado Filho, filólogo que queria recolher vestígios de um dialeto banto. Mas da lingüística à alma, tem o longo caminho da poesia repousada na vida, vivida agora. E de lá pra cá, é lambá que me traz o caminho não vivido, sentido.

II

Neste momento, cantigas são entoadas por negros e negras no Rio de Janeiro. Também em São Paulo, e talvez por toda parte. Num lugar de pobreza reservada para negros, de repressão reservada para a pobreza, lambá tem cara, que não muda. O capitalismo se desenvolve, sistema político, organização de serviços e a expressão de deveres e direitos mudam, mas lambá não muda, é dos negros, como os cantos.

Numa entrevista que fiz em Heliópolis, um cantador negro me entoou letra que escrevera: “camelô também é trabalhador. Vende sua mercadoria, pra ganhar no dia-a-dia, no centro, bairros e vilas, na correria. Quando começa é mó sufoco: olha o rapa! Quem moscou, vacilou, teve suas coisas levadas, no rosto, vejo o desânimo, não levou nada pra casa. Infelizmente é assim, o caçador e a caça, na guerra de quem vive suando a camisa, é a batalha do pobre pelo pão da nossa família. Trabalhador, camelô, já acordou, cinco da matina, é o cotidiano”.

É lambá. Aos olhos do Estado, crime. E novamente no canto, África vai nos enchendo de alma, enquanto é sufocada. No canto dos escravos, consumo sentimento e cantador definha. É canto negro, vivência negra que me invade. E caminho na hipocrisia, na tristeza de que o sofrer dele pouco muda minha alegria.

III

Hoje, em coisa de segundos, me lembrei de uma menina, vi tristeza no meu mundo e fui invadido pela África, em forma de vissungo.

A menina me veio por texto. Escreveu sobre a criação do mundo pelos Desana. Conta que Baaribo espalhou pelo pano de tururi a terra de nascer gente, a terra da gente abrir os olhos, a terra de formar gente e a terra de virar gente. Os Desana explicam as diferenças no mundo em formação: “quando os primeiros brancos chegaram na região, os nossos avôs já sabiam que eles vinham para fazer a guerra, porque Yebá-gõãmi havia dito para o ancestral deles ganhar a sua vida pela violência”.

A menina que me apresentou os Desana é a mesma que me apresentou os vissungos. É menina que vive num mundo de brancos, negros e indígenas, e que entende do sofrer.

Nesses tempos de guerra e cantoria, mudou a racionalidade, mudaram as ações e as legitimidades. Bíblia muda pra lei, chicote muda pra algemas. Mas África continua a encher nossas almas, e Yebá-gõãmi continua explicando nosso mundo.–hugo fanton (cc)