O lado podre da maçã

novembro 7th, 2011 § 1 comment § permalink

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Steve Jobs teria “mudado o mundo”? Ensaio sobre os hábitos de consumo e condições de trabalho que sua empresa reforçou

POR TADEU BREDA
@tadeubreda

Quando Steve Jobs morreu de câncer pancreático no último dia 5 de outubro, o presidente dos Estados Unidos lamentou a perda recordando os atributos pessoais e profissionais daquele que, disse, foi um dos maiores inovadores americanos. “Era valente o suficiente para pensar diferente, audacioso o suficiente para acreditar que poderia mudar o mundo e talentoso o suficiente para fazer isso.” Barack Obama lembrou ainda que Steve Jobs “transformou nossas vidas, redefiniu indústrias inteiras e alcançou uma das mais raras façanhas da história humana: mudou a forma como cada um de nós enxerga o mundo”.

Com diferentes matizes, declarações semelhantes reproduziram-se pelo mundo conforme a notícia sobre o falecimento do fundador da Apple ganhava audiência. Personalidades e anônimos da imprensa, da tecnologia e do design homenagearam o gênio criativo de Steve Jobs com os elogios de revolucionário, inovador, visionário — e daí pra cima. As revistas de maior circulação e prestígio estamparam capas com Steve e dedicaram longas reportagens ao seu legado. Pontes, ruas e estradas foram batizadas com seu nome. Fui ao hospital logo depois da tragédia e, pelos corredores, o corpo médico não falava em outra coisa.

Nas Apple Stores, lojas exclusivas da empresa, fãs colocaram flores, bilhetinhos e maçãs para demonstrar seu carinho ao inventor do iPod, iPhone e iPad. Bordões digitais, como Thank You Steve (Obrigado, Steve), RIP Steve (Descanse em Paz, Steve) e iSad (Eu, Triste), percorreram Twitter e Facebook. O saite da Apple, claro, rendeu as devidas homenagens a seu mentor. E, para coroar as celebrações internéticas, um grupo de admiradores criou, no 14 de outubro, o Steve Jobs Day, um dia inteiramente dedicado a celebrar sua vida e obra — e agradecê-lo pelo que fez. Na página, fotos de gente dos quatro cantos do mundo imitando as poses históricas do empresário.

Como a imensa maioria da população mundial, nunca tive nenhum produto da Apple — o que, para mim, não é motivo nem de vergonha nem de orgulho. Talvez por isso tive dificuldades para entender o porquê de tantas e tão sentimentais homenagens. Idolatria barata? Falta do que fazer? Afetação? Reconhecimento merecido? Existia alguma coisa aí cuja compreensão me escapava. Então, resolvi amolar pessoas próximas que possuem pelo menos uma das pequenas maravilhas tecnológicas da Apple e bombardeá-las de perguntas.

É gente comum, que usa os inventos de Steve Jobs no dia a dia para trabalhar, divertir-se ou realizar algumas tarefas corriqueiras que, antes, realizavam de outra maneira — ou, simplesmente, não realizavam. Fazer a contabilidade pessoal, por exemplo, ou bater papo com os amigos. Quis saber se renderiam homenagens póstumas a Steve; que relação mantinham com seu aparato; por que o sujeito foi endeusado pelos consumidores de seus produtos etc. O método não é nada científico ou representativo da realidade, mas me ajudou a entender algumas coisas — e pode ser que também te ajude, se você, como eu, está por fora da Applemania.

“Steve Jobs fez as pessoas sentirem que suas vidas poderiam ser melhores”, me diz um amigo. Estávamos conversando pelo telefone quando introduzi o assunto que me intrigava havia já alguns dias. Afinal, era só um empresário, não? — perguntei. “Não, cara”, prosseguiu. “Steve Jobs era o melhor vendedor do mundo. Era um líder. E um líder, dentro do capitalismo, dá sentido à vida das pessoas através do consumo.”

Ok, é um ponto de vista. Não soube o que dizer, e por isso fiquei em silêncio, esperando os argumentos seguintes. Então meu amigo emendou: “Possuir um produto da Apple dá a sensação de fazer parte de algo importante, relevante, estiloso e refinado, que está gerando um impacto tremendo em todo o mundo.” Isso já é mais fácil de entender — mais do que encontrar o sentido da vida num aparelhinho multifuncional com a tela sensível ao toque. Pode a existência de alguém completar-se totalmente com a mera posse de um iPhone?

Ninguém duvida que o iPod, em 2001, e o iTunes, em 2003, reinventaram o negócio da música, que estava numa sinuca de bico com a “ameaça” da internet. O iPhone, lançado em 2007, mudou a maneira como as pessoas se relacionam com a telefonia celular, com a fotografia, os vídeos e as redes sociais — como cansaram de dizer por aí, Steve Jobs colocou a internet em nosso bolso. O iPhone mudou também a maneira como seus proprietários se relacionam entre si. Depois veio o iPad, em 2010, e decretou como deveria ser a nova geração de tablets que ganhariam o mercado.

Cada novo lançamento da Apple — estrelado por Steve Jobs em calça jeans, tênis e camisa preta de gola rolê — era um acontecimento repercutido pela imprensa comercial em todo o mundo. Saíam na TV, nos jornais, na internet. Especialistas da informática os interpretavam como o mais novo passo na caminhada tecnológica do ser humano, o padrão a ser imitado por todas as outras empresas que querem continuar vivas e vendendo. O frison era geral na opinião pública.

Não é difícil entender porque as pessoas sentem impulso por fazer parte de algo que parece ser tão importante. E o caminho para que um reles mortal integre o movimento internacional pela alta tecnologia de bolso é um só — rápido, prazeroso e divisível em suaves prestações: basta comprá-lo e você está dentro. Pode ser que um aparelho da Apple transforme o consumidor em partícipe de uma causa: a alabada “revolução” causada por Steve Jobs.

“Jobs sacou uma coisa: as pessoas não sabem o que querem. Logo, começou a fazer produtos que elas iriam não apenas querer, mas desejar”, agora quem diz é uma amiga. “Vamos transformar os produtos em bens de consumo, mais que isso, sonhos de consumo! Num mundo capitalista, ele se deu muito bem.” Gênio do marketing, pois. Não há dúvidas. Steve Jobs criou uma aura de adoração ao redor de seus aparatos. Pra muita gente, não são meros produtos: são arte. Na Apple, Steve diariamente inculcava em seus funcionários a certeza de que eram artistas. Basta lembrar que o pioneiro Macintosh — criado em 1983 e lançado em 1984 como primeiro computador pessoal a congregar interface gráfica e mouse, algo hoje corriqueiro — faz parte do acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA).

“Steve Jobs vendeu sonhos, criou coisas sedutoras e fez com que o mundo quisesse uma maçã mordida. É tão intuitivo, é tão fácil manusear um produto da Apple, tão simplificado que todas as outras coisas se tornam feias e complexas demais.” Nisso muita gente coincide. “Os produtos da Apple são bons”, explica outra amiga. “É o que há de melhor no mercado. São tão bons que as pessoas não se importam em pagar um pouco mais, porque sabem que suas expectativas serão plenamente satisfeitas.”

É bem provável que os fãs que se deram o trabalho de caminhar até uma Apple Store e depositar uma flor para Steve Jobs nunca tenham visto seu Mac dar um pau violento, como acontece com o Windows. O mesmo com os milhares de admiradores que inundaram a internet com manifestações de apreço ao criador das mais novas pequenas maravilhas do mundo. Provavelmente, nunca perderam horas de trabalho por causa de uma falha geral do sistema. Senão, qual o sentido de tantas declarações de amor e gratidão?

“A Apple está diretamente atrelada ao nome do Jobs”, continua meu amigo, aquele primeiro. “As pessoas confundem as duas coisas, personificam. Como gostam muito dos dispositivos, é uma maneira de agradecer quem os fez possível. É como se Jobs fosse o grande responsável pela dádiva que me foi concedida de ter um produto da Apple.”

A associação entre criador e criatura se faz ainda mais automática se lembramos que Steve Jobs possuía mais de 300 patentes em seu nome — 317, para ser mais exato. O New York Times publicou todas elas. Vão desde computadores de mesa, laptops, monitores, mouse e teclados até fontes de energia, escadas, sistemas operacionais, telefones celulares e alguns aparelhos que jamais foram lançados. Praticamente tudo que a Apple fez tem, senão o dedo, pelo menos o nome de Steve Jobs.

Podemos recapitular e resumir seu legado utilizando as palavras de Michael Calore, da revista Wired. “Jobs não foi apenas um empresário experiente, mas um visionário que tomou para si a missão de humanizar a computação pessoal, reescrevendo as regras do design para usuários, para softwares e hardwares. Suas ações repercutiram em toda a indústria: ele abalou o negócio da música, arrastou as operadoras de telefonia móvel para o ringue de boxe, mudou a forma de vender informática e alterou para sempre a linguagem das interfaces de computador. Ao longo do caminho, fez da Apple uma das corporações mais valiosas do mundo.”

Certo, eu entendo tudo isso. E me somo ao coro não dos fãs, mas dos que reconhecem a importância de Steve Jobs na formatação da rotina que levamos hoje em dia nas grandes e médias cidades. Afinal, estou escrevendo este texto num computador, que não é Macintosh, mas cuja estrutura de funcionamento deve muito às apostas comerciais feitas pela Apple nos anos 1980. Porém, tudo o que meus amigos me falaram — e o que li na imprensa comum e especializada — não parece suficiente para sustentar a afirmação de que Steve Jobs é o cara.

“Mas você esperava o quê? Que ele tirasse as crianças da rua?”, me perguntam. Claro que não, apesar de achar que mudar o mundo é isso. Mas eu esperava, pelo menos, que as pessoas não saíssem por aí chamando um empresário de revolucionário quando, longe da sofisticação dos produtos da Apple, existe uma cadeia de produção que é exatamente a mesma que existe há séculos — e que causa exploração nas linhas de montagem terceiromundistas para disponibilizar conforto e bem-estar nas prateleiras das butiques tecnológicas ao redor do mundo.

Chamar Steve Jobs de gênio do marketing, do design, da informática e da tecnologia, tudo bem. Mas chamá-lo de gênio, simplesmente, ou revolucionário, visionário etc. me parece um exagero, um equívoco e uma falta de sensibilidade. Pior é dizer, como Barack Obama, que Steve mudou o mundo. Ora, mas que mundo? De que mundo estamos falando, afinal?

Certamente não é do mundo dos trabalhadores que fabricam os produtos da Apple nos galpões da Foxconn instalados nas cidades chinesas de Shenzen e Chengdu. Ali, cumprem jornadas excessivas, de pelo menos 10 horas diárias, que se transformam facilmente em 15 ou 16 devido às horas-extras que acabam cumprindo. Um repórter do jornal chinês Southern Weekend infiltrou-se na fábrica da Foxconn para relatar o dia a dia dos funcionários. Disse que o salário médio é de 130 dólares mensais. E que, graças à baixa remuneração, as horas-extras são uma espécie de obrigação autoimposta aos trabalhadores. Os chefes não obrigam, mas tampouco pagam suficientemente bem para que os funcionários tenham autonomia para decidir não trabalhar a mais. “Sem horas-extras, você dificilmente consegue viver”, disse.

Por isso, cumprem expedientes de 60 a 80 horas por semana. Quando a Foxconn deve responder aos exíguos prazos impostos pelo departamento comercial da Apple, as jornadas se estendem — compulsoriamente, se for preciso. “A demanda pelo primeiro iPad foi tão intensa que os trabalhadores afirmam que tiveram que trabalhar 7 dias por semana durante o pico de produção”, publicou o jornal britânico The Guardian.

Uma reportagem da Bloomberg Bussiness Week informa que nas linhas de montagem da Foxconn é proibido conversar. Os funcionários têm direito a uma pausa de 10 minutos para ir ao banheiro a cada duas horas de trabalho. Quando estão apertados, devem levantar a mão e esperar que um supervisor lhes dê a ordem para sair. Deixar as instalações da empresa também não é tão simples. Os empregados da Foxconn em Shenzen moram na fábrica. De acordo com o Guardian, a companhia disponibiliza dormitórios coletivos para até 24 pessoas. São quartos decentes, mas com rígidas regras de convivência. Muitos funcionários visitam a família apenas uma vez por ano.

O jornalista Joel Jonhson foi enviado pela revista Wired para ver com os próprios olhos a situação dos trabalhadores na fábrica da Foxconn em Shenzen, onde trabalham, comem e dormem 500 mil pessoas. A reportagem que produziu é, de longe, o melhor e mais completo relato jornalístico produzido sobre a gigante tecnológica — que é, sozinha, a maior empregadora privada da China, com 1 milhão de funcionários em todas as suas filiais.

“O trabalho em si não é desumano”, escreveu. “A não ser que você considere desumano um lugar de trabalho repetitivo, exaustivo e alienante, sobre o qual o funcionário não tem nenhuma influência ou autoridade.”

Alguns dados podem ajudar o leitor a pensar. Quando chegou à fábrica da Foxconn, a primeira coisa que chamou a atenção do jornalista foram as redes. Isso mesmo, redes, como aquelas que, no circo, protegem os trapezistas de qualquer queda inesperada sobre o picadeiro. Na empresa, porém, as quedas — ou melhor, os saltos — são esperados. E não, não há ninguém trabalhando do lado de fora dos edifícios, pendurados por cordas. Alguns funcionários da Foxconn se jogam pela janela.

Entre 2007 e 2010, foram 17 suicídios, trabalhadores que simplesmente se lançaram no vazio e esboracharam no chão. Daí as redes. Agora, quem não aguenta a rotina de trabalho e resolve acabar com a própria vida tem grandes chances de não morrer. Assim, evitam dores de cabeça nos executivos da Foxconn e da Apple.

Além das redes, a direção da companhia tomou outras medidas para reduzir a taxa de suicídio entre seus funcionários. Segundo o Guardian, contrataram um monge para exorcizar os espíritos malditos da linha de montagem. Depois, começaram a sugerir que os jovens se mataram para que suas famílias recebessem as compensações financeiras que a empresa teria que desembolsar. Então, decidiram evitar tamanho oportunismo obrigando os trabalhadores a assinar um termo contratual em que se comprometem a não cometer suicídio. Caso acabem se jogando do prédio, um dispositivo legal garante que a família não peça indenizações maiores que o valor mínimo estabelecido pela lei.

Outra empresa que faz parte da cadeia de fornecedores da Apple (Wintek, com sede em Suzhou) também se viu às voltas com problemas trabalhistas. Dessa vez, não foi suicídio, mas contaminação por produtos químicos. Especificamente, uma substância chamada n-hexano, utilizada para limpar as telas sensíveis ao toque do iPhone e a maçãzinha que simboliza seu criador.

De acordo com a BBC, pelo menos 137 empregados da Wintek foram envenenados pelo n-hexano em 2010 — e, desde que entraram em contato com a substância, passaram a colecionar uma série de sintomas. “O uso prolongado do n-hexano pode causar danos extensivos ao sistema nervoso periférico e, em casos extremos, à medula espinhal, levando à fraqueza muscular, atrofia e até paralisia”, explicou Paul Whitehead, toxicologista da Real Sociedade Britânica de Química, ao Guardian.

O especialista afirma que o n-hexano também afeta a fertilidade masculina, e lembra que o organismo leva pelo menos um ano para recuperar-se dos malefícios causados pela exposição à substância. Whitehead revela ainda que seus efeitos nocivos são bem conhecidos pela indústria há muito tempo. Mesmo assim, a Wintek resolveu empregá-lo na produção do iPhone, em substituição ao álcool, porque seu secamento é mais rápido. Assim, agilizaria a entrega dos aparelhos tão desejados pela sociedade.

Os fornecedores da Apple também empregam mão de obra infantil. O Telegraph noticiou que, em 2009, pelo menos 11 garotos de 15 anos foram descobertos na linha de montagem dos produtos de Steve Jobs. A companhia manteve sigilo sobre a localização dessas ocorências. Suspeita-se que, a exemplo das demais denúncias, os abusos tenham ocorrido na China.

Por fim, uma explosão nas instalações da Foxconn, em Chengdu, matou ao menos 3 trabalhadores e feriu outros 15 em maio de 2011. De acordo com o jornal Los Angeles Times, a ONG Students & Scholars Against Corporate Misbehavior, com sede em Hong Kong, denunciou que o complexo industrial da Foxconn em Chengdu foi inaugurado prematuramente. A empresa começou a produzir apenas 76 dias após o início das obras. Parte da estrutura ainda estava em construção.

O Guardian teve acesso a uma auditoria realizada pela própria Apple sobre sua cadeia produtiva. No documento, a empresa admite uma série de problemas detectados junto a seus fornecedores. Diz a empresa que, em 2010, 54% de seus prestadores de serviço fizeram seus funcionários trabalharem mais de 60 horas semanais — ou 10 horas por dia; 39% não cumpriram os requisitos mínimos de prevenção de acidentes; 17% não tomaram as devidas precauções contra a exposição de seus funcionários a produtos químicos; 35% não cumpriram metas salariais — 24 das 102 fornecedoras da Apple pagam menos que o mínimo aceitável; e 3 fábricas foram flagradas empregando trabalho infantil.

São apenas números, frios, mas não podemos perder de vista que, detrás deles, estão trabalhadores de carne e osso. E que, apesar de tudo, apenas um contrato foi rompido pela Apple no período: não porque a empresa em questão abusou dos funcionários, mas porque falsificou dados.

“A Foxconn não é uma fábrica de exploração”, protestou Steve Jobs, em 2010, durante o All Things Digital, uma conferência de executivos da mídia e da tecnologia realizada na Califórnia. “Você vai até lá e, sim, é uma fábrica, mas, meu Deus, eles têm restaurantes e cinemas e hospitais e piscinas. Para uma fábrica, até que é bem legal.”

Os executivos da Foxconn concordam. A revista Wired explica que os diretores da companhia gostam de comparar suas instalações a um campus universitário, com áreas de descanso, alojamentos e a maior cozinha industrial da Ásia. “Por mais problemas que a Foxconn possa ter” — escreveu o jornalista Joel Johnson após conversar com muita gente dentro e fora da empresa — “é um dos melhores lugares para se trabalhar em Shenzen.”

Apenas no primeiro trimestre de 2011, a Apple, longe de todas as mazelas trabalhistas chinesas, teve um lucro de 6 bilhões de dólares. Tanto dinheiro veio da venda de 4,13 milhões de Macintoshs, 16,24 milhões de iPhones, 19,45 milhões de iPods e 7,33 milhões de iPads — a grande maioria deles produzidos na China, pela Foxconn e demais fornecedores.

O dono da Apple trouxe soluções para “problemas” criados pelo surgimento das novas tecnologias. Ocupou um nicho de mercado — que talvez ele mesmo tenha criado — e enriqueceu com sua astúcia empresarial. Algumas pessoas dizem que foi um revolucionário. No entanto, se deixamos um pouco de lado os edifícios reluzentes do Vale do Silício e desviamos nosso olhar para as fábricas onde são montadas as pequenas maravilhas da Apple, veremos que Steve Jobs, longe de ter contribuído para alguma mudança, reforçou padrões de exploração trabalhista que baratearam o custo do iPhone e incrementaram sua fortuna pessoal — estimada em 8,3 bilhões de dólares.

Steve Jobs não mudou o mundo. No limite, talvez o tenha deixado mais bonito para alguns — os compradores — enquanto mantinha a feiúra da rotina dos trabalhadores, especialmente na China. Foi apenas mais um bilionário que soube surfar nas ondas do sistema como ninguém, mas que, como muitos, não se incomodou em prestar atenção às vítimas que causou pelo caminho. Assim, conseguiu ganhar dinheiro até com as viagens de LSD que teve na juventude. —@tadeubreda

Além do consenso

fevereiro 10th, 2011 § 1 comment § permalink

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POR TADEU BREDA | Santiago, Chile
@tadeubreda

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) escolheu um requintado hotel cinco estrelas de Santiago, no Chile, para realizar, em dezembro último, sua 17ª Reunião Regional Americana. O encontro acontece a cada quatro anos – em 2006 foi sediado em Brasília – e reúne representantes de governo, trabalhadores e empresários para que, conjuntamente, possam avaliar e discutir os mais variados temas relacionados ao mundo do trabalho e emprego no continente.

Como não podia deixar de ser, a maioria dos debates se pautou pelos efeitos da crise internacional e suas consequências sobre a América Latina. “A crise chegou quando a região concluía um ciclo econômico positivo, o que a ajudou a suportar melhor os altos e baixos do mercado”, analisa o diretor-geral da OIT, Juan Somavia. “Mas também foram cruciais as medidas governamentais baseadas no investimento público, na manutenção dos postos de trabalho e dos salários, nas políticas de geração de emprego e nas iniciativas de proteção social destinadas a diminuir o impacto da crise sobre as famílias.”

Graças à competência dos governos latinoamericanos em enfrentar a crise e ao dinamismo dos mercados asiáticos, que absorveram boa parte das exportações, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) estima para a região uma média de crescimento em torno de 5% em 2010 – e isso apenas dois anos depois da crise começar a alastrar-se pelo mundo. O diretor-geral da OIT avalia, porém, que o crescimento econômico por si só não basta para trazer desenvolvimento. “As economias podem estar indo melhor, mas enquanto as pessoas não tenham empregos e salários suficientes, a recuperação não será real nem sustentável.”

É verdade que, entre 2002 e 2008, o número de pessoas vivendo em condições extremas de pobreza na região baixou de 97 milhões para 71 milhões, enquanto os pobres passaram a somar 180 milhões, em vez dos 221 milhões no início da década. Contudo, os dados se referem ao período imediatamente anterior à recessão. “Ainda que tenhamos avançado, os avanços são limitados, e o mais provável é que tenham ocorrido retrocessos por causa da crise”, diagnostica Juan Somavia.

Para o movimento sindical, o caminho para seguir avançando e reduzindo as desigualdades é a implementação dos direitos já reconhecidos e consagrados, no papel, pelo consenso entre trabalhadores, empresários e governos no seio da OIT. Aliás, entre os maiores problemas apontados pelos dirigentes sindicais durante a Reunião, figurava justamente o descompasso entre a realidade do trabalho no continente e o conteúdo das convenções internacionais, sobretudo em três temas: liberdade de associação sindical, negociação coletiva de contratos de trabalho e seguridade social.

De acordo com a Confederação Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas (CSA), a região latinoamericana é a mais perigosa do mundo para o exercício do sindicalismo. Colômbia, devido à guerra civil e ao narcotráfico, Honduras, após o golpe de Estado, e Guatemala, onde nos primeiros dez dias de 2011 já se registrou o assassinato de pelo menos um sindicalista, são os países mais mortíferos para a luta dos trabalhadores.

No ano passado, o Panamá assistiu à morte de dez manifestantes que protestavam contra um projeto de lei que diminuía a atuação dos sindicatos no país. O massacre de Bocas de Toro foi chancelado pelo governo do presidente Ricardo Martinelli e deixou um saldo adicional de 700 feridos e centenas de prisões. Estatísticas recopiladas pela Confederação Sindical Internacional (CSI) em 2005 mostraram que, apenas naquele ano, 80 trabalhadores perderam a vida, 275 foram ameaçados de morte, 480 foram torturados ou feridos e 1.700 foram despedidos abusivamente apenas porque exerceram algum tipo de atividade sindical.

A OIT reconhece que a “sindicalização e a negociação coletiva são instrumentos essenciais para avançar por uma via de desenvolvimento com equidade”, mas não parece haver consenso sobre a questão na América Latina. “Não queremos apenas queixar-nos dos atropelos, mas também reivindicar o direito dos trabalhadores em organizar sindicatos por ramo de atividade e a negociar coletivamente por ramo atividade”, explica Victor Báez Mosqueira, secretário-geral da CSA.

Isso porque, com poucas exceções, como Brasil, Argentina e Uruguai, os sindicatos de base na América Latina apenas podem ser organizados no âmbito das empresas, o que limita a capacidade de diálogo entre trabalhadores e patrões. “O modelo de organização sindical por empresa é débil, e queremos superá-lo”, continua Victor Báez. “Porém, muitas legislações nacionais não respeitam integralmente o Convênio 98 da OIT, que estabelece os direitos de sindicalização e negociação coletiva.”

Os dados latinoamericanos sobre saúde e segurança no trabalho também assumiram papel central, ainda mais porque a reunião aconteceu no Chile, onde recentemente 33 mineiros passaram mais de dois meses soterrados a 700 metros de profundidade após um deslizamento de terra. “Neste continente existem 30 milhões de acidentes de trabalho ao ano, que resultam em 240 mil mortes anuais”, pontuou o secretário-geral da CSA. “No Chile, o acidente com os mineiros foi transformado num show midiático, e não se discutiu a responsabilidade da empresa que produziu o acidente”, protestou, lembrando que na localidade mexicana de Pasta de Conchos, em 2006, um acidente semelhante sepultou a 65 mineiros sem que os poderes público ou privado se mobilizassem para o resgate.

De discussão em discussão, a 17ª Reunião Regional Americana deixou transparecer uma diferença crucial no pensamento de trabalhadores e empresários no que se refere ao reconhecimento – e cumprimento – dos direitos trabalhistas. E esta diferença se revela com mais clareza nos conceitos de ‘empresa sustentável’ e ‘trabalho decente’.

Empresa sustentável nada mais é do que um negócio que dá lucro e, assim, se sustenta financeiramente dentro do sistema econômico. Já a noção de trabalho decente se pauta pela existência de empregos de qualidade, ou seja, pela criação de postos de trabalho protegidos pela legislação trabalhista e pelo sistema de seguridade social. A OIT acredita que as ideias de empresa sustentável e trabalho decente são complementares, e que a melhor maneira de um empresário prosperar é respeitando os direitos de seus empregados.

A lógica é parecida à dos trabalhadores, que afirmam ser impossível haver empresa sustentável sem trabalho decente. Para os sindicalistas, antes do lucro, devem-se garantir os direitos. Os empresários fazem o raciocínio inverso e defendem que não pode haver trabalho decente sem empresa sustentável: primeiro vem o lucro, depois os direitos.

“A globalização econômica estabeleceu uma regra fundamental: a competitividade, que é a oportunidade de cada pessoa buscar no mercado internacional os produtos e serviços mais adequados para suas necessidades”, explica Dagoberto Lima Godoy, representante da organização dos empresários na 17ª Reunião Regional Americana da OIT. “Daí surge a necessidade de criar entorno institucional e infraestrutura para que nossas empresas sejam competitivas e possam agregar valor. Só então terão condições de oferecer melhores salários para os trabalhadores.”

Numa época em que países desenvolvidos (Espanha e França, por exemplo) estão recortando direitos trabalhistas como forma de paliar os efeitos da crise, o movimento sindical reunido em Santiago manifestou total contrariedade à ideia de repetir nas Américas as medidas adotadas na Europa. Os sindicalistas acreditam que os trabalhadores não são responsáveis pela recessão, que se originou no mercado financeiro. Portanto, não devem arcar com seus custos.

Ao falar sobre a recuperação econômica na América Latina, o diretor-geral da OIT segue o mesmo raciocínio. “É um requisito indispensável que os empregos que forem sendo gerados sejam produtivos e de qualidade, e que as trabalhadoras e trabalhadores possam ocupá-los em condições de liberdade, igualdade, segurança e dignidade humana”, defende Juan Somavia. “A promoção do trabalho decente é uma ferramenta insubstituível para o combate à pobreza.”

O resultado da 17ª Reunião Regional da OIT foi avaliado como positivo pelo sindicalismo das Américas. O documento final (produto de um consenso entre trabalhadores, empresários e governos) reafirmou a importância fundamental dos direitos à livre associação sindical e à negociação coletiva, e reconheceu que as políticas de proteção social foram fundamentais para enfrentar os efeitos da crise econômica. Também se chegou a um acordo sobre a necessidade de aprofundar os direitos trabalhistas nos países onde as convenções da OIT ainda não saíram do papel e regular os trabalhadores que estão na informalidade, os abrigando sobre o guarda-chuva da proteção social.

Os empresários, por sua vez, fizeram constar entre as conclusões da Reunião o compromisso conjunto pelo fomento à competitividade na economia e às empresas sustentáveis e o respeito à propriedade privada – a qual, segundo Dagoberto Lima Godoy, “está consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas muitas vezes sofre contestações e agressões na América Latina.”

“Depois de muitos conflitos, contradições e disputa com os empresários, conseguimos elaborar um documento que espelha – e muito – nossas vontades”, avalia João Felício, secretário de relações internacionais da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Brasil. “Nas Américas há uma exclusão muito grande do movimento sindical nos processos de negociação, e o documento fala da necessidade de respeitar as convenções da OIT e estabelecer o diálogo social para fortalecer cada vez mais os sindicatos na região.” –tadeu breda (cc)

Publicado na Revista do Brasil

EL TEMA CENTRAL

Entrevista a Juan Somavia, director general de la OIT

“Vivimos una crisis dentro de la crisis.” Así evaluó la actual situación de la economía mundial el director general de la OIT, Juan Somavia, en la ciudad de Santiago de Chile durante la apertura de la 17ª Reunión Regional Americana de la Organización Internacional del Trabajo.

“La calidad del empleo define la calidad de la sociedad, y el nivel de empleo juvenil define el futuro de la sociedad. Estamos deficientes en estos dos rublos desde antes de la crisis financiera, y ahora tenemos que llevarlos en cuenta para salir de la crisis”, dijo.

“Una economía que no es capaz de darle trabajo a los jóvenes les está quitando el piso de su futuro y está fallando con la familia y la sociedad. En consecuencia, es una economía que no funciona. En América Latina, tenemos una macroeconomía que está creciendo, pero no hay trabajo a los jóvenes ni suficiente empleo de calidad.”

El director general de la OIT cree que el modelo de globalización históricamente supervaloró la capacidad de los mercados en autorregularse, al paso que subvaloró el rol del Estado y de las políticas públicas en generar crecimiento y desarrollo. “Vemos que el sistema devaluó de muchas maneras la noción de la dignidad del trabajo humano como eje de la sociedad, del medio ambiente y del servicio público”, subrayó.

Según Juan Somavia, el gran problema es que muy a menudo se suele observar el trabajo solamente en su dimensión de mercado, a la vez que se olvida lo más importante: su significado social. “El trabajo es fuente de dignidad personal, que le da al ser humano la sensación de estar contribuyendo y haciendo parte de la sociedad. Después, el trabajo también es fuente de estabilidad familiar, pues un hogar desempleado o con trabajo precario se ve perjudicado. Finalmente, las comunidades que trabajan son comunidades en paz, lo que quiere decir que el trabajo es fuente de paz social.”

Por ello, una de las principales preocupaciones de la OIT, de acuerdo con su director general, es alertar a la comunidad internacional de que considerar el trabajo como costo y consumo es un equívoco inmenso, que trae consigo el riesgo de producir generaciones perdidas de jóvenes. “Lo que tenemos que resolver es el tema de la dignidad en el trabajo, no sólo del mercado. Éste es el tema central.”

Acerca de los conceptos de libertad sindical y negociación colectiva, Juan Somavia cree que los países de la región sí han avanzado en la creación de espacios democráticos. Sin embargo, analiza que reconocer los derechos laborales no es lo mismo que aplicarlos en la práctica.

“La promoción de la libertad sindical y negociación colectiva es absolutamente esencial. Eso va unido a otro elemento: para que haya trabajo decente, tiene que haber trabajo y tiene que haber empresa”, explica.

“La visión de trabajo decente de la OIT es una visión productiva, que mezcla la calidad del trabajo a la calidad de la empresa. Lo que pasa es que la libertad sindical y la negociación colectiva son vistas como un obstáculo por los empleadores. Pero nuestra experiencia dice el revés, porque son ellas que le dan estabilidad a la empresa, al sector productivo y que contribuye a la paz social.” –tadeu breda (cc)

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